Textos que me inspiram
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12 de maio de 2019

Mãe é quem fica...


Mãe é quem fica. Depois que todos vão. Depois que a luz apaga. Depois que todos dormem. Mãe fica.

Às vezes não fica em presença física. Mas mãe sempre fica. Uma vez que você tenha um filho, nunca mais seu coração estará inteiramente onde você estiver. Uma parte sempre fica.



Fica neles. Se eles comeram. Se dormiram na hora certa. Se brincaram como deveriam. Se a professora da escola é gentil. Se o amiguinho parou de bater. Se o pai lembrou de dar o remédio.

Mãe fica. Fica entalada no escorregador do espaço kids, pra brincar com a cria. Fica espremida no canto da cama de madrugada pra se certificar que a tosse melhorou. Fica com o resto da comida do filho, pra não perder mais tempo cozinhando.

É quando a gente fica que nasce a mãe. Na presença inteira. No olhar atento. Nos braços que embalam. No colo que acolhe.



Mãe é quem fica. Quando o chão some sob os pés. Quando todo mundo vai embora. Quando as certezas se desfazem. Mãe fica.

Mãe é a teimosia do amor, que insiste em permanecer e ocupar todos os cantos. É caminho de cura. Nada jamais será mais transformador do que amar um filho. E nada jamais será mais fortalecedor que ser amado por uma mãe.


É porque a mãe fica, que o filho vai. E no filho que vai, sempre fica um pouco da mãe: em um jeito peculiar de dobrar as roupas. Na mania de empilhar a louça só do lado esquerdo da pia. No hábito de sempre avisar que está entrando no banho. Na compaixão pelos outros. No olhar sensível. Na força pra lutar.

No coração do filho, mãe fica.

por Daniela Fanti

30 de dezembro de 2016

'Vocês vão se arrepender de querer que eu termine', diz 2016



Quem vos fala é o ano que corre. Calma, guardem suas pedras. Sei que não sou benquisto entre vocês. Tenho ouvido a torto e a direito o bordão "acaba, 2016" -praticamente um novo "Fora, Temer". Sei que pareço tão interminável quanto o interino- mas ao contrário dele, tenho hora pra acabar. E falta pouco.

Desistam de me matar antes do fim. Pra começar, um ano só morre de morte natural. Sinto informar que nunca, em toda a história, um ano acabou antes do tempo regulamentar. Aliás, minto. O ano de 1582, coitado, teve dez dias a menos, mas seu encurtamento não teve nada a ver com sua péssima performance enquanto ano.

O papa resolveu adiantar uns diazinhos porque o ano tava desregulado com o sol -embora haja quem diga que ele só queria que chegasse logo o seu "niver". (Imagina que delícia ser papa naquela época e poder andar com o calendário pra cima e pra baixo: "Fica decretado que esta semana não terá segunda-feira por motivos de: preguiça", "esse ano pularemos o mês de agosto por motivos de: não tem feriado".) Ninguém curtiu a ansiedade papal. Imagine quão puto ficou Giorgio, coitado, que trabalhava na taberna: tirou dez dias de férias dia 4 mas teve que voltar ao trabalho no dia seguinte.

O papa de hoje já não manda nada (infelizmente: talvez fosse melhor um mundo comandado pelo papa-fofo), mas vamos supor que o papa-Mujica tivesse superpoderes e pudesse encolher o ano: não sei se vocês perceberam mas, quando eu acabar, vai começar o ano de 2017. Não sou de falar mal de outros anos, mas o coitado nem começou e já tá todo errado. "Ah, foi em 2016 que Trump e Crivella ganharam as eleições", vocês dizem. Sim, mas é em 2017 que eles vão começar a governar. Ainda querem que eu acabe? É impressão minha ou eu acabei de ouvir um "não acaba nunca, 2016! Fica! Vai ter bolo!"?

Queria que vocês lembrassem de mim não como o ano em que todo mundo morreu, mas como o ano em que tanta gente boa ainda estava viva; não como o ano da maior tragédia do esporte, mas como o ano da maior solidariedade: vocês já tinham visto um clube abrir mão do título de campeão? Na minha gestão morreu muita gente, é verdade. Mas também nasceu gente pra dedéu. Disso ninguém lembra.

Fácil falar de mim. Quero ver pagar minhas contas. A história me absolverá, disse um dos que morreram sob o meu jugo (só pra lembrar: não fui eu que matei; foi o charuto). Fica a dica: aproveitem esse finalzinho. Vocês vão sentir saudade.

28 de abril de 2014

Mais do mesmo


Eu não gosto quando me colocam em certos “
papéis” na vida...  E na maioria das vezes parece que o mundo é das pessoas que “quebram barreiras” não se poupam e não poupam os outros das suas maldades... Enfim, me auto-proibi de escrever sobre... Encontrei esse texto nas andanças pelo facebook e negritei as partes que eu me identifiquei.   


“Minha amiga disse que eu sou muito folgada, quero que o mundo se adapte a mim. E que esse é o meu problema, eu já começo colocando barreiras, vou morrer sozinha. Não gosto quando praguejam que eu vou morrer sozinha, como se eu estivesse fazendo por merecer esse grande final. E não gosto, principalmente, porque isso não seria um castigo e sim uma escolha. Juro que prefiro solidão a um do que a dois. Ou, no auge do egoísmo, parar com um desses carinhas que a gente sabe que são incríveis, mas não rola, não flui. Eles merecem ser amados e eu não tenho o direito de privá-los disso. Acredito que folgada seja quem se espalha nessa comodidade. Não crio barreiras. Elas se criaram sozinhas quando eu me posicionei pro mundo. E acho que se for pra ser, se for mesmo pra ser, o cara quebra as barreiras. Se não for, elas me poupam. E tem me poupado! De todos os tantos anos que me virei do avesso pra me adaptar aos outros, só ganhei cicatrizes. Parei. Se é a melhor postura, não sei, mas hoje eu ando sem dor. Minha amiga derruba barreiras, escancara as portas e tá aí, sem amor. Sentimento não é um favor. Prefiro ser minha a viver disposta a ser de quem for.”

Marcella Fernanda

10 de abril de 2014

A solidão criativa




Não estou fazendo apologia à solidão, mas estar só permite criar mundos que jamais criaríamos se estivéssemos acompanhados. O terraço da casa dos meus pais é testemunha concreta desta história. Ele me viu aprontar tantas coisas. Ele foi a tela, o palco no qual pintei, bordei e interpretei toda a minha infância.

Um dia, fiz uma guerra nascer (hoje eu sei que toda guerra deve morrer!). De um lado, o Exército Insensível, comandado pelo maléfico General Cabeça de Balde, com sua multidão de soldados-tijolos enfileirados numa precisão militar, esperando a ordem superior para atacar. Nós, das Forças Amadas, não tínhamos comando, estratégia ou tática de guerrilha. O amor não é subordinável, costuma apenas seguir o coração. Por isso, às vezes, perde uma ou outra batalha – nunca a guerra! Nas trincheiras que cavei na montanha de areia destinada à construção de um muro de proteção coloquei meus soldados-paralelepípedos em posição de defesa. Eu, montado em meu cavalete quebrado, me sentia um verdadeiro herói da Cavalaria. Segurava um cabo de vassoura abandonado – que naquele momento eu jurava ser a ponta da minha espada. Eles atiravam com balas coloridas. E a gente revidava com uma chuvarada de bolinhas de gude. Depois de um intenso tiroteio, eles bateram em retirada. Vencemos! 

Quem brinca com a imaginação nunca sai derrotado. Nós hasteamos a bandeira branca – roubada no varal de roupa limpa – ainda molhada (seria o suor dos nossos heróis imaginários?). Sem mortos, sem feridos: salvaram-se todos! A criatividade não mata, não fere. A falta dela talvez…

No dia seguinte, quis ser astronauta. Aproximei duas camas – a minha e a da minha irmã – e me enfiei naquele vão. Coloquei um colchão no chão para voar com todo o conforto do mundo. O painel de controle ficou por conta do meu Game Boy. Se pintasse algum cometa inesperado no caminho, Mario Bros me ajudaria a saltar e a cumprir minha missão com êxito. Dois ventiladores na ponta de cada cama eram as turbinas da minha nave espacial (que potência!). Lençóis vermelhos e laranja simulavam a energia que me faria abandonar o quarto e alcançar o céu em uma fração de segundo. Para a minha segurança, improvisei um capacete feito com papelão e travesseiro. A tripulação – um Playmobil, dois Power Rangers e três girafinhas – está a postos. Aposto que estão com medo! Um walkie-talkie assegura a comunicação da nave com a torre de controle. Tudo está sob controle: podemos ligar os motores! É um pequeno espaço para mim, mas um grande passo para a criatividade.

PEDRO GABRIEL
© Lado Milla
Maira Gall