7 de junho de 2019

Pós-graduação X depressão



A pós-graduação era para ser um período maravilhoso, em que você tem a chance de estudar, se aprofundar em um tema, conversar com pessoas inteligentes, frequentar congressos, ler ótimos livros e artigos, e por fim produzir uma pesquisa do jeito que você queria. Então por que costuma ser uma das piores fases na vida de um estudante?

Esse período sombrio frequentemente é marcado por um desânimo insistente, e em alguns casos, depressão clínica. No mínimo, você fica por algum tempo “para baixo”. Não passou por isso? Certamente conhece alguém que esteve nessa situação.

Saiu um artigo na revista Nature sobre a alta frequência de casos de depressão entre estudantes de pós-graduação. Dizem que principalmente aqueles alunos que foram brilhantes na graduação sofrem bastante na pós. Alguns motivos listados foram o isolamento causado pela competição do mundo acadêmico, altas expectativas e falta de sono. Outro agravante é ter uma relação ruim com o orientador ou com colegas. O artigo ressalta a falta de preparo das universidades para ajudar esses estudantes, pois normalmente há ajuda apenas para os graduandos, mas não para os pós-graduandos e suas demandas específicas.

No blog CoNeCt, há um comentário sobre esse artigo e algumas outras possíveis causas da depressão nos pós-graduandos. Vou acrescentar aqui algumas outras possibilidades. Por que a pós-graduação é desoladora? (Obs. Estou considerando uma pessoa com dedicação exclusiva à pós-graduação stricto sensu, ou seja, mestrado e doutorado).

1. Estou sozinho.

                   

 O pós-graduando é um solitário. Geralmente ele tem o próprio projeto e segue sozinho nele. Mesmo os que fazem parte de um grupo de pesquisa, têm tarefas tão específicas que raramente encontram os demais. Os horários das aulas não batem, e você não encontra mais ninguém conhecido com frequência. Um está coletando dados, outro saiu da cidade para ir a campo, outro está em casa lendo. Não há uma rotina de encontro das mesmas pessoas nos mesmos lugares, o que dificulta o contato social. Você não tem com quem conversar. Se tem, seu projeto é tão único que ninguém entende os seus dilemas (mas o que você quer dizer com estar chateado porque o alfa de Cronbach do segundo teste da terceira bateria de avaliações sobre tomada de decisão em situação de incerteza estar dando abaixo de 0.5???).

2. Sou um inútil.

                      


Se você só estuda, isso significa que você só estuda, ou seja, é um inútil. Aliás, esse estudo aí que você está fazendo serve para que mesmo? Vai salvar as criancinhas da África? Vai resolver o aquecimento global? Vai achar a cura para o câncer? Não? Então por que você está gastando seu tempo nisso? Os outros te perguntam qual é a utilidade do seu estudo, e por fim, você se pergunta. Você mesmo tem dúvidas se aquilo vai te levar a algum lugar, e se vai beneficiar alguém de verdade. Alguns estão mais preocupados em estar certos, e quando o experimento vai na direção contrária, ficam bem estressados. Outros se preocupam com isso e com querer ajudar a humanidade, e a relação entre uma pesquisa de pós-graduação e a aplicação no mundo real costuma ser fraca. Além disso, ninguém entende que você está se dedicando ao estudo, principalmente quando está na fase de escrever a dissertação na sua casa ("ele não faz nada o dia todo, só fica nesse computador"). Não há reconhecimento social, porque é difícil explicar que você só estuda e o que é que você estuda (poucos entendem - quem nunca fugiu da temida pergunta “E o que é exatamente que você estuda?”), e sua identidade fica abalada. Quem sou eu?

3. Meu orientador não está nem aí para mim.

Para aumentar o sentimento de solidão e de falta de reconhecimento, sequer seu orientador te dá bola. Ele sempre está ocupado com aulas, mil pesquisas e artigos que têm que ser feitos de qualquer forma, e mais dezenas de reuniões e bancas. Nem sempre é culpa dele, não me entendam mal. As vezes o sistema é realmente o culpado. Enfim, o resultado é que você não tem orientação, trabalha no escuro, não sabe se está indo na direção certa, normalmente até ser tarde demais para evitar o vexame na defesa (ou o seu pensamento constante de que a defesa será um vexame, que é bem pior). E se a pessoa que mais deveria se interessar pelo seu trabalho não está ali, fica difícil achar que seu trabalho tem algum valor.

4. Não vou ter o que fazer com esse diploma.


Essa é mais típica dos doutorandos do que dos mestrandos. Você tem certa desconfiança de que toda aquela dedicação na verdade depois não servirá para nada. Sente que sua tese será jogada em um canto na biblioteca (modernizando, será mais um arquivo nesse mundo da Internet). Você já está sem dinheiro agora e se pergunta o que será do amanhã. Seu diploma será usado para que mesmo? Ah, lembrei, irei disputar meia dúzia de vagas com todos os outros doutores do país. Fácil. Tradução: hoje = estudante de pós, amanhã = desempregado sem esperança.

5. Tudo o que faço é para aumentar uma linha do lattes.

Depois de um tempo na vida acadêmica, você tem a sensação de que tudo o que tem que fazer se resume a acrescentar coisas no seu currículo lattes. Para que vou naquele congresso? Resposta – para ir à praia e colocar no seu lattes que você apresentou o trabalho. Para que tenho que modificar algumas linhas desse mesmo trabalho e ir a outro congresso? Resposta - para ir à praia e colocar no seu lattes que você apresentou o trabalho. Para que tenho que escrever artigos que eu não quero escrever e publicar em uma boa revista científica? Para aumentar uma linha no lattes (publish or perish). É isso, minha vida se resume a aumentar meu lattes, e aí a ordem se inverte: faço para publicar e não publico porque fiz. E talvez aumentar o lattes não seja um objetivo tão nobre, e aí você sente sua vida vazia.

Sozinho, inútil, deixado de lado, desempregado e com uma vida sem sentido. E depois não sabem por que o pós-graduando fica deprimido...



Brincadeiras à parte, a pós-graduação realmente é um período difícil. As pessoas acham que o momento mais delicado de decisão profissional é na hora de escolher um curso para prestar o vestibular, mas eu discordo. Para mim até agora o momento mais difícil foi depois de estar formada e ter entrado na pós-graduação, porque ali não há tempo, você tem que saber quem você é. Sou pesquisadora? Sou psicóloga social? Sou um professor? Sou um biólogo? Antes parece que há espaço para o “teste”, mas depois que você se forma o mundo e você mesmo esperam certas coisas, como ter um salário fixo, começar uma carreira, ter uma identidade profissional. Para quem tem dedicação exclusiva aos estudos, a pós-graduação é um adiamento da entrada no mercado de trabalho, e pode ser angustiante.

Concordo com o artigo da Nature quando afirma que as universidades deveriam se preocupar mais com o estado psicológico dos estudantes. Penso que seja necessário criar espaços que facilitem a interação social, a troca de conhecimento e o sentimento de pertencimento a um grupo entre os pós-graduandos. Também é necessário um sistema que valorize mais o trabalho de todos, afinal o estudante precisa sentir que faz algo importante. O orientador tem um papel crucial, é dele que tem que vir o maior apoio, pois é a nossa figura de admiração e que representa o conhecimento, além de ser a autoridade formal

Isabella Bertelli; Formada em Psicologia pela USP e mestre em Psicologia Experimental. Trabalho com treinamento corporativo e orientação de carreira.

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5 de junho de 2019

Escrevendo a gente inventa...

Fonte: Canva
Escrevendo a gente inventa.
Inventa um romance, uma saudade, uma mentira...
É escrevendo que aprendi a imaginar.
Imagino histórias que muitas vezes se confundem com a realidade.

Foi juntando as letras nos tempos da pré- escola que aprendi a escrever.
invento histórias e escrevo sobre a vida real...
que no fim, fica sendo a mesma coisa no olhar de outros.

Escrevo sem pudor e sem pecado.
escrevo para lembrar o passado, vivendo o presente e para programar o futuro
preciso disso para espantar os meus demônios ou para desabafar sobre as minhas dores ou contar sobre as minhas alegrias.

Se eu consegui reunir os amigos escrevendo?

Sinceramente eu não sei responder, vejo a escrita como algo particular uma relação tipo “uma mente viajando, uma caneta e uma folha de papel...”, mas gosto sim de sentir essa reciprocidade e até mesmo amizade pelas minhas escritas.

Eu acho muito boa essa sensação de “quatro paredes” que a escrita proporciona
mas ao mesmo tempo me sinto “na cara do furacão” quando disponho as minhas escritas aqui.  Mas, a intenção na maioria das vezes nem é causar tanto impacto assim...

Nesses últimos tempos tentei descrever os meus sentimentos e escrever sobre eles. Tentei ignorar os avisos do Humberto Guessiger quando diz que “tem coisas que não cabem num encarte de CD” e outra vez um grande amigo também me disse que os sentimentos quando são verdadeiros não precisamos achar explicações para isso somente precisamos sentir.

2 de junho de 2019

Uma Carta para Deus...

Inspirado nesse post aqui.

Deus,
 
eu não sei se o Senhor tem alguma rede social, se tem tempo livre para ler textos, ou se ao menos sabe que eu existo. Mas eu queria falar sobre a minha cachorra Mallu Malenotti. 


Ela é essa cachorra pequena sorridente e bonita aí da foto. Ela era pequena mas tinha uma coragem de cachorro de grande porte. Mesmo pequena, mandava no Teddy um Lhasa Apso que tinha o dobro  do seu tamanho Girls Power!)

E sabe aquela expressão muito popular "Manda quem pode obedece quem tem juízo "? Obedecia quem não queria levar algumas mordidas... A Mallu levou a sério a sua vocação de cão de guarda. Ela cuidou de mim e da minha família. Ficou ao nosso lado mesmo estando atenta ao minimo ruido que ouvia na rua, mesmo quando ninguém mais queria ficar...  Eu era a pessoa preferida dela, e fui guardada com uma lealdade, uma firmeza e, sim, um ciúme que pareciam não ter fim. 

Assim como o seu amor.  Ele fazia de tudo para me deixar feliz. Prestava atenção em tudo que eu dizia, com seus grandes olhos arregalados, de alguma forma parecia entender quando algo lhe parecia muito absurdo...  Ele fazia de tudo para me deixar feliz. Prestava atenção em tudo que eu dizia, com seus grandes olhos arregalados, mesmo que não entendesse uma só palavra. Dançava, se jogava e rolava no chão, se esparramava nas minhas pernas com cara de bobona mesmo sendo um dos seres mais inteligentes que eu já conheci. Caminhava de guia e coleira sempre na frente com uma delicadeza de elefante na loja de cristais mesmo tendo que levar alguns esporros ao longo do passeio.


A fome da Mallu era insassiavel! E quando ganhava pequenos pedaços de carne quase levava um pedaço do meu dedo junto... Roubava a comida do Teddy e ele sempre deixava... e olhava pra mim com o canto do olho, como um filha esperando minha aprovação. Não tem como você não se sentir especial ao ser amado por uma criatura tão linda e pura.


Eu estou te escrevendo tudo isso, Deus porque nessa semana o câncer o levou de mim. Eu e minha familia fizemos tudo que estava ao nosso alcance para evitar isso. Nos últimos dias, eu o carreguei em meus braços por toda a casa. Tentei tranquilizá-la, falando em seu ouvido o quanto eu a amava e como nunca iria deixa-la. Fui forte por ela, como tantas vezes ela foi por mim. Segurei em sua patinha trêmula e fiquei com ela até o último batimento de seu lindo coração. Ela já deve estar chegando aí, Deus peço que brinque com ela, corra na grama e e coce a barriga dela, sabe, todas essas coisas tão simples, mas que nos davam tanta alegria. Por favor, cuide bem da minha cachorrinha, até chegar o momento de eu ir para aí e me reencontrar com ela.

Para que eu seja merecedora disso, vou me esforçar em ser um boa mulher . E me inspirar na Mallu. Afinal, ele foi um bom menina.




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© Lado Milla
Maira Gall